06/03/08

LUTAS I

Há uns 30 anos atrás os portugueses eram um povo constituido, acima de tudo, por trabalhadores indiferenciados. Haviam os técnicos disto e daquilo e haviam, muitos, auxiliares não especializados, operários não especializados, etc... Depois haviam camponeses, resmas de tropas e alguns licenciados que sobraram daquela febre maluca que deu em sanear todos os que tinham mais dinheiro. No período revolucionário suspeitava-se de juízes, polícias, políticos, bem-vestidos, padres e tal mas também havia quem fosse respeitado. No cimo da pirâmide, dos respeitados, estavam os médicos e os professores.
Nessa altura os partidos ML, que acolhiam a maioria dos chamados anti-fascistas clamavam pelo fim das classes, pelo poder popular e , aparentemente, lutavam por isso. E eu também, claro. Nessa altura parecia que fazia sentido, contudo com o passar dos anos tudo isso se foi diluindo numa sociedade em que os ricos de hoje transformariam os ricos da altura, em gente com algum dinheiro e apenas isso.
Nesses tempos, anos 70 e 80, as manifestações que faziam tremer os governos eram as do operariado (os metalúrgicos eram temíveis) pela sua força, consciência de classe, palavras de ordem sem papas na língua e, pela forma, como eram dirigidas.
Nessa altura, a ideia de que o poder pertencia ao povo estava de tal forma presente que, muitas vezes, não se sabia o que esperar de um protesto ou de uma manifestação, o importante era agitar, mostrar força, a força do povo, a força dos explorados e oprimidos. Os dirigentes sabiam o que faziam, e as gentes, ainda pedradas com o sucesso de Abril aderiam em força. Não era preciso dizer porque é que ia haver uma manifestação ou uma greve, bastava dizer que ia haver e lá ia tudo. Assim se extremaram posições, se queimaram sedes de partidos, se deixou fugir muito dinheirinho para o estrangeiro, se dividiram, mais tarde, cidadãos, se caminhou para o Portugal de hoje.
Entretanto, foram feitos alguns ajustes, a indústria foi-se escoando na nossa inabilidade, os operários passaram a ser quadros técnicos, os indiferenciados operadores, os camponeses voyers de parques eólicos e etc... As lutas passaram a ter muito mais a ver com carreiras, ordenados, promoções, manutenção de direitos adquiridos. Os sindicatos, outrora poderosos, também eles se diluiram numa sociedade com preocupações díspares daquelas para as quais se formaram os sindicalistas. Para uma determinada classe deixou de ser necessário apenas um sindicato, em vez disso passou a haver 2 ou 3 conforme o target político dos profissionais dessa classe. A coisa ficou mole, um sindicato quer assim, o outro, mesmo querendo igual, diz que quer assado para se distinguir do primeiro e a coisa vai indo. Os trabalhadores, esses, na sua maioria, mesmo os que pagam quotas nunca tiveram qualquer contacto com os seus representantes. Quantos saberão onde fica a sede do seu sindicato?
De vez em quando parece que todos esses sindicalistas têm um despertar colectivo, mas não podem ter, todos sabemos que não podem ter. Esses sindicalistas de que falo, já morreram ou andam pelos 60/70/80 anos, já se reformaram e, como trataram disso, têm uma vida digna e razoavelmente remunerada. Alguns renderam-se às evidencias, dantes chamadas capitalistas, e bateram com a porta. Então quem é que substitui, hoje, aqueles homens e mulheres que nunca tinham horas para estar em casa, que achavam que estavam em missão pelos seus colegas, que davam o que tinham e mais o que não tinham pela luta sem qualquer compensação a não ser o reconhecimento dos companheiros de trabalho?
No meu entender: ninguém! Por isso, e ainda no meu entender, eles não existem. Resiste a ideologia cujo paradigma são esses tempos, por não haver uma prática ou preparação posterior. Dantes os sindicalistas eram escolhidos pela sua entrega às causas laborais e reconhecidos pelos companheiros de trabalho, os partidos disputavam o seu recrutamento para as suas fileiras. Hoje os sindicalistas são escolhidos no partido e, quase sempre, entre os menos aptos para evoluir na carreira profissional e, só por isso, aceitam a delegacia.

1 comentário:

Tó Cruz disse...

excelente visão, parabéns. esses escolhidos pelo partido não são os nogueiras de hoje?

abç.